The Christian Post > Opiniões|Ter, 19 Mar. 2013 16:33 PM EST

Quatro livros chamados de Evangelhos

PorVilson Scholz | Colunista Convidado do The Christian Post

Existem certas épocas do ano, como a semana da Páscoa, em que de modo todo especial nos damos conta de que temos, na Bíblia, quatro livros chamados de Evangelhos. Por quê quatro Evangelhos? Sim, por quê quatro, e não seis, ou oito, ou apenas três? Não temos uma resposta definitiva para essa pergunta. (Deus o sabe.). Também não sabemos desde quando os cristãos se perguntam: Por quê quatro Evangelhos? O que sabemos é que, em termos históricos, a reflexão mais antiga sobre isso nos vem de Irineu de Lião, um teólogo que viveu por volta de 150 d. C. Parece que, naquela parte do mundo (sul da França), naquele tempo, já se tinha clareza de que o número dos Evangelhos era quatro. Irineu disse que isso era tão natural como haver quatro cantos da terra: norte, sul, leste e oeste. Mas ele tinha também uma aparente base bíblica para isso, a saber, os quatro seres vivos que aparecem na visão do trono de Deus, em Apocalipse 4. Trata-se de um leão, que seria Mateus; de um novilho ou touro, que seria Marcos; de um homem, que seria Lucas; e de uma águia, que seria João. Há quem afirme que, de fato, o Evangelho de Lucas é mais humano e que o Evangelho de João se assemelha a uma águia, voando mais alto. Agora, dificilmente o texto de Apocalipse 4 está falando sobre os quatro evangelistas, ainda que de forma simbólica.

  • Vilson Scholz

Mesmo que não se saiba desde quando a igreja cristã está consciente de que os livros chamados de Evangelhos são quatro, uma coisa é certa: havia, nos primeiros tempos, mais candidatos do que vagas. Houve pessoas que quiseram incluir outros livros no Novo Testamento, mas a igreja disse não. Hoje, eles são conhecidos como evangelhos apócrifos. Outra coisa líquida e certa é que a Igreja já tinha clareza sobre isso muito tempo antes de Constantino, no quarto século. É preciso enfatizar isso, porque muitos vão na carona de autores como Dan Brown, que repetiu a tese de que essa questão só teria sido decidida no concílio de Niceia, em 325 d.C. Nada poderia ser mais falso!

Quatro Evangelhos, quatro relatos. Isso dá na vista especialmente quando se chega à história do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus. Acontece que, na parte final da história, os paralelos entre os quatro Evangelhos se acentuam. Agora, será que isso é um problema? E tem solução?

Para muitos, isso foi e ainda é um problema. O primeiro a lidar com isso foi um teólogo sírio, chamado Taciano, lá por volta do ano 170 d. C. Ele combinou os quatro Evangelhos, numa obra que veio a ser chamada de Diatessarão, ou seja, uma “combinação de quatro”. Na região da Síria, esse livro tomou o lugar dos quatro Evangelhos por um bom período de tempo, mas por fim os quatro Evangelhos acabaram ganhando a parada.

A igreja recebeu quatro Evangelhos. A tentação no sentido de harmonizá-los sempre é grande. Nesse sentido, uma das partes mais “fáceis” de harmonizar – tanto assim que já foi feito várias vezes, no passado – é a história do julgamento de Jesus, seguida de sua morte e sepultamento. É comum, por exemplo, falar sobre as sete palavras de Cristo na cruz, embora nem sempre se esteja consciente de que elas não aparecem todas num só Evangelho ou em todos eles por igual. Muito mais difícil de fazer, para não dizer impossível, é a harmonização dos relatos da Páscoa. Fica a pergunta: Jesus se manifestou primeiro a um grupo de mulheres, como dizem Mateus, Marcos e Lucas, ou a Maria Madalena, como diz o Evangelho de João? Este é um problema, mas, como tantos outros, tem também o seu aspecto positivo, pois é sinal de que as testemunhas não combinaram o que iriam relatar. Cada evangelista dá o seu testemunho, os seus relatos estão nos Evangelhos, nós nos damos conta das tensões, e temos de conviver com elas. No fundo, os diferentes relatos não se contradizem, por mais que não possamos nem queiramos harmonizá-los, mesmo quando fazemos a leitura e o estudo deles em paralelo. A igreja cristã tem quatro Evangelhos e sempre rejeitou tentativas de fazer deles uma mistura, para que se tivesse apenas um. Que bom que temos quatro relatos! Um dia vamos entender a razão das pequenas diferenças, se é que vamos nos lembrar de perguntar.

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Vilson Scholz tem doutorado na área de Novo Testamento e é consultor de Tradução da Sociedade Bíblica do Brasil. Acesse a página www.sbb.org.br.
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