The Christian Post > Opiniões|Qui, 20 Jan. 2011 17:01 PM EST

Secularismo e Indiferença Teológica: Uma Causa Comum

PorS. Michael Craven | Christian Post Guest Columnist

Na semana passada tive o prazer de voltar a aparecer no programa de rádio Point of View com o meu bom amigo Kerby Anderson. Como sempre, Kerby faz um excelente trabalho de análise às mais variadas questões a partir de uma perspectiva cristã inteligente. Em causa estava a aparente falta de "discernimento" bíblico entre os Cristãos. Embora haja uma multiplicidade de fatores que contribuem para o atual estado de ignorância bíblica e teológica, o secularismo tem sido um importante fator contribuinte.

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Eu acho que há muita confusão acerca do secularismo - o que vem a ser, assim como seu impacto e origem. Em termos do que o secularismo é, isso depende. Para alguns, o secularismo assegura o direito de ser livre de regras religiosas, bem como o direito à liberdade de imposição governamental da religião sobre o povo. Em suma, eles acreditam que o Estado não deve interferir em questões de consciência religiosa. Isto seria o mais próximo das intenções dos Pais Fundadores da América, cujo propósito era proteger contra as fraudes dos antigos monarcas britânicos que, arbitrariamente, declaravam o seu direito divino sobre a Igreja e acima da lei. Assim, o secularismo, neste sentido, refere-se a uma divisão adequada entre a Igreja e o Estado, com a autoridade do Estado a ser estritamente limitada em matéria de fé e conduta religiosa.

No entanto, no século XVII surgiu um laicismo muito mais pernicioso que enfatizava a completa exclusão da religião de todos os aspectos da vida pública. Quanto às causas desta mudança, a Igreja não precisa de olhar senão para si mesma. Após a Reforma Protestante do século XVI, e mais tarde Contra-Reforma Católica, a Europa foi lançada em convulsão política, militar e econômica à medida que as nações se envolviam em guerras em torno da religião por causa de disputas doutrinárias e teológicas. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) era simultaneamente um conflito religioso internacional e uma guerra civil alemã, envolvendo nações e regiões luteranas, reformadas e católicas. Em resposta direta às divergências teológicas, foram levadas a cabo estas guerras pela convergência profana entre Igreja e Estado. Em 1700, os europeus fartaram-se. A carnificina resultante, a desintegração social e as dificuldades econômicas abririam aos europeus uma "era da razão" sobre e contra o seu passado religioso. Como Alister McGrath, teólogo cristão e acadêmico de Oxford aponta, "Estava criado o fundamento para a insistência do Iluminismo de que a religião era para ser uma questão de crença pessoal" (McGrath, Christianity’s Dangerous Idea, [HarperOne: New York, NY, 2007).

Na Europa, a divisão entre o sagrado e o secular surgiria com a intenção de se excluir o sagrado de qualquer contribuição significativa para a vida pública e política. A razão humana seria divorciada da fé e elevada acima de Deus como a qualidade divina entre os homens. Os homens, sem dependerem de Deus, iriam tentar governar-se a si mesmos por meio da razão, da ciência e tecnologia - as ferramentas da modernidade. A fé, acreditavam eles, tinha falhado e desapontado aos homens e ao mundo em que eles viviam. Assim, Deus, a fé e o sobrenatural (no sentido cristão ortodoxo) seriam relegados ao passado - artigos de antiguidade, representantes do mundo antecedente à idade da razão.

Por fim, estas idéias viriam a fixar-se no outro lado do Atlântico. Para alguns, como Thomas Jefferson e James Madison, o seu efeito seria menos antagônico à religião, embora favorável ao deísmo. O movimento deísta manteria uma permissão para deus e até mesmo para um certo grau de religiosidade, mas a crença num Deus pessoal, que continua envolvido nos assuntos diários do homem e da história iria dissipar-se. Para outros, como Thomas Paine - ele próprio um deísta anti-cristão - o Iluminismo viria a promover uma intenção secularista mais radical, em vista da absoluta exclusão da religião da praça pública. É esta forma de secularismo que confunde a Igreja nos dias de hoje.

Embora a tendência seja o foco sobre os efeitos de secularização que trouxeram as guerras religiosas do Século XVII, a Igreja, creio, continua a sofrer de outra maneira. O período precedente e posterior à Reforma Protestante foi um dos mais controversos na história da Igreja. O debate sobre interpretações concorrentes teológicas e doutrinárias foi tão intenso, justamente porque estas eram consideradas como sendo de extrema importância. Para os Cristãos daquela época, a precisão da fé cristã estava em jogo. As questões voltaram-se para a própria natureza de Deus e do homem, a natureza da salvação, e a fonte de autoridade teológica. Estas continuam a ser questões importantes que hoje poucos conseguem responder com exatidão. Foi só o modo e forma que o debate tomou que foi um erro, não o ato de inquirição. Houve uma sincera e séria contenda pelas coisas de Deus - coisas consideradas tão importantes que homens e mulheres estavam dispostos a morrer em vez de ceder ao que entendiam ser errado. Pode dizer-se que a doutrina é divisora e tem vindo a dividir, mas nunca diga que a doutrina não é importante. Isso seria uma afronta para aqueles que foram martirizados em obediência às suas convicções doutrinárias.

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Sem intenção, e apesar de mais de trezentos anos terem passado desde as guerras religiosas, a Igreja permanece relutante, se não mesmo indiferente, para discutir a teologia e a doutrina. Como resultado, a teologia e a doutrina – os fundamentos da nossa fé – tomaram um papel secundário na vida diária e prática da Igreja. Muitas Igrejas têm-se simplesmente tornado anti-teológicas e orgulhosas de tal. Optamos por experiências pessoais e corporativas ao invés de rigor intelectual e discipulado que pode confrontar noções teológicas pessoais. Eu uso o termo ‘teológico’ de maneira pouco rigorosa aqui. Os fatos são estes: muitos Cristãos americanos não sabem coisa alguma relacionada à histórica teologia ortodoxa cristã ou têm acumulado um conjunto de noções inconsistentes sobre Deus, que mistura várias posições teológicas da forma que melhor lhes convier. De uma maneira ou de outra a Igreja contemporânea sofre bastante com esta falta de entendimento.

É hora, uma vez mais, de a Igreja analisar e discutir (de forma razoável e com amor) os fundamentos da nossa fé, tal como definidos e delineados nos credos históricos, nas confissões, na teologia e nas doutrinas que têm chegado até nós através dos séculos. Isso abre a possibilidade de contenção; pois uma vez que mergulhados nestas águas descobrimos a importância da teologia e suas implicações para a fé e prática. No entanto, esta discussão não tem de se tornar feia, e nós devemos trabalhar no espírito de unidade em obediência a Cristo (cf. Jo 17), para realmente conhecer a Cristo, o que acreditamos e porquê. Este é o trabalho no qual estou cada vez mais empenhado, e oro para que outros líderes da Igreja levem a sério o papel que a doutrina e a teologia têm em fazer discípulos. Uma Igreja anti-teológica é uma Igreja confundida e essa confusão fomenta o erro e a incerteza.

S. Michael Craven é o Presidente do Center for Christ & Culture. (N.do T.: algo como “Centro Cristo & Cultura” em português) Michael é o autor de Uncompromised Faith: Overcoming Our Culturalized Christianity (Navpress). [N.do T.: Fé Sem Compromisso: Vencendo nosso Cristianismo Aculturado (ainda sem tradução no Brasil)].O ministério de Michael é dedicado à renovação dentro da Igreja e trabalhos para equipar os Cristãos com uma abordagem inteligente e completa às questões culturais para demonstrar a importância da vida cristã para todas as vidas. Para maiores informações sobre o Center for Christ & Culture visite: www.battlefortruth.org. Michael mora na região de Dallas com sua esposa Carol e seus três filhos.
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